Saturday, October 14

Soneto prático

quando não há mais qualquer coisa após
o que vivemos juntos, a não ser
o fim, com a tragédia de sabê-lo
fim, e a certeza da dor, atroz,

quando você e eu formamos nós
e nossos nós não podem desatar-se,
antes que os nós acabem por cegar-se
e de berrar percamos nossa voz,

por mais que doa e que nos caia o céu
sobre os olhos abertos, e os meus
rasguem-se de dor e feito papel

chovam corpos picados sobre os seus,
por amor mesmo, e para ser fiel,
é preciso saber dizer adeus.

Gregório Duvivier

Wednesday, September 27

"Um dos poemas de Walt Whitman que gostaria de ter escrito diz assim:

«Creio que uma folha de erva não vale menos do que a jornada das estrelas,/ E que a formiga não é menos perfeita, nem um grão de areia, nem um ovo de carriça,/ E que o sapo é uma obra prima para o mais exigente,/[…]E que a vaca ruminando com a cabeça baixa supera qualquer estátua,/E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar milhões de infiéis.»"

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira)
25.09.11

Wednesday, September 13

Tuesday, September 12

Tuesday, September 5

"Pensar não é ver tudo claríssimo, mas sim começar a não ver nada claro o que antes considerávamos evidente. O cepticismo acompanha sempre a filosofia, flexibiliza-a, dá-lhe sensatez: só os tontos nunca duvidam do que ouvem e só os néscios nunca duvidam daquilo em que acreditam."

Fernando Savater, Livre mente

Thursday, August 31



"O amanhã é amanhã um novo dia 
Onde te vejo sempre do meu lado 
Por ti mudava o mundo e repetia 
A aventura que canto neste fado"

Kátia Guerreiro

Sunday, August 27

Saturday, August 26

You don't know what love is

Until you've thrown away the love letters.

Tuesday, August 22

Que guardarão de mim as casas que
deixei? O pó sobre o meu nome?

Maria do Rosário Pedreira

O teu nome, o teu encanto, a tua idade

Sunday, August 6

"History isn't a single narrative, but thousands of alternative narratives. Whenever we choose to tell one, we are also choosing to silence others."

Yuval Noah Harari, Homo Deus - A brief history of tomorrow

Monday, June 26

Tolerância e democracia

"A tolerância nasceu, pois, como um valor do laicismo: foi um preservativo contra o zelo apostólico. Conserva este sentido clássico nos países teocráticos, como o são alguns de cunho islâmico. É uma demonstração patética de indigência intelectual entreter-se a discutir o se o "verdadeiro" Islão manda ou não cometer as atrocidades inquisitoriais que se levam a cabo em seu nome. Como o cristianimos ou o judaísmo, como as restantes religiões, o Islão mistura barbaridades crúeis, superstições absurdas e uma comovedora piedade humana, a partir de confusos e arcaicos textos e da voz sobreposta de mil clérigos: o intolerante não é o Islão, mas sim o seu poder político, o facto lamentável de continuar a ser a única ou principal fonte de legalidade em comunidades cujo pluralismo asfixia. Mas é claro que o nosso século também conheceu exemplos desta pretensão eclesiástica de se converter no referente unânime de sentido da vida social dentro de movimentos políticos não religiosos: os totalitarismos comunista e nazi, os nacionalismos ferozes, o racismo e a xenofobia, até o produtivismo à outrance e a santificação exclusiva do lucro econónimo (cuja contrapartida não é o desinteresse franciscano, mas sim interesses igualmente materiais e racionais, embora de ordem diferente).

Nos países democráticos e nos que desejam vir a sê-lo, a tolerância já não é só uma reivindicação feita por indivíduos e grupos aos poderes políticos, mas uma exigência da comunidade a cada um dos seus membros, para que suportem pacificamente aquilo que desaprovam nos seus concidadãos. Deve ficar claro que viver numa democracia actual (e ainda mais na futura) equivale a coexistir com aquilo de que não gostamos, com o que consideramos errado ou mesquinho, com o que nos repugna ou não conseguimos entender. Democracia é um concerto discordante, uma harmonia cacofónica, pelo que exige mais lassitude no aspecto colectivo e mais maturidade responsável no campo pessoal do que outro sistema político. O que caracteriza o viver em democracia é sentir impaciência e desassosego; encontrar no comum um amparo genérico, mas pouco consolo gregário para as inquietações privadas. De modo que a tentação de se identificar com algo simples e vigoroso, que expulse incertezas e dissidências, é constante, sobretudo quando a educação não anda muito bem e a economia tão-pouco."

Fernando Savater, Livre-mente

Thursday, June 15